Há poucos dias eu publiquei a comparação dos dois planos de governo, lado a lado e sem torcida. Aquele texto era sobre o que está escrito nos planos. Este aqui é o contrário: é sobre o que NÃO está. E é pura opinião minha.

Lendo as 160 páginas dos dois documentos, eu senti falta das mesmas coisas nos dois. São 10 propostas que, na minha opinião, qualquer plano de governo sério precisava ter. Em cada uma eu digo se algum dos planos chega perto, porque eu li os dois e conferi. E vale o mesmo convite do outro texto: leia os documentos oficiais e tire as suas conclusões.

1. Educação financeira para os nossos jovens

A gente sai da escola sabendo a fórmula de Bhaskara e sem saber o que o juros do cartão de crédito faz com um salário. Parcelamento, nome sujo, empréstimo, aposentadoria: tudo isso o brasileiro aprende apanhando, já adulto e já endividado. No outro texto eu mostrei que os dois planos se preocupam com as famílias endividadas. Nenhum dos dois ataca a raiz. Educação financeira tinha que ser matéria de escola, desde cedo, como qualquer outra.

Nos planos: nada sobre educação financeira na escola. O do PL cita cursos de finanças para adultos numa plataforma de capacitação, que é outra conversa.

2. Acabar com o Enem como prova única

Hoje a vida de um jovem brasileiro se decide em um fim de semana. Dormiu mal, ficou nervoso, perdeu o ano. Eu acabaria com o Enem como porta única de entrada e implantaria a análise do aluno como um todo, como boa parte do mundo já faz:

  • a média das notas do ensino médio inteiro, e não de uma prova só;
  • trabalhos voluntários e participação na comunidade;
  • currículo e cartas de recomendação.

E tem um efeito que eu acho até mais importante que a prova em si: esse modelo incentiva o jovem a trabalhar desde cedo. Estágio, meio período, primeiro emprego, projeto voluntário: tudo vira ponto a favor para entrar na faculdade, em vez de valer só a decoreba.

Nos planos: nenhum dos dois mexe na forma de entrar na universidade. O do PL toca no lado do trabalho jovem: promete um contrato especial de primeiro emprego para quem tem de 18 a 24 anos, com menos custo para a empresa (p. 43).

3. Escola pública bilíngue

Inglês de verdade, da alfabetização ao fim do ensino médio, até a escola pública se tornar bilíngue, com as melhores oferecendo também currículo internacional, o IB. O inglês abre salário, abre pesquisa, abre mundo. Enquanto ele for privilégio de quem paga curso particular, a desigualdade começa na língua.

Nos planos: o do PT promete ampliar o MEC Idiomas, um aplicativo de celular para aprender inglês e espanhol. É alguma coisa, mas é muito pouco perto de uma escola bilíngue. O do PL só cita idiomas em cursos de capacitação para adultos.

4. Experiência internacional ao alcance de todos

Aqui eu sou suspeito, e assumo: eu trabalho com intercâmbio justamente porque conheci o Canadá em janeiro de 2010 e aquilo mudou a minha vida. Eu queria que todo jovem brasileiro tivesse essa chance, e não só quem nasceu em família que pode pagar. O caminho existe e a Alemanha mostra como: empréstimo público para estudar fora, que a pessoa paga de volta com juros baixos ao longo da vida, quando já estiver trabalhando.

Nos planos: o mecanismo até existe no plano do PL, mas só para a faculdade aqui dentro: o Empréstimo Contingente à Renda, em que o estudante começa a pagar quando estiver empregado e a parcela acompanha o salário (p. 37). Aplicar essa mesma lógica à experiência internacional seria o passo seguinte. O do PT lembra que renegociou as dívidas do FIES e ampliou bolsas, mas exterior mesmo, nada.

5. Community college no Brasil

Nem todo mundo precisa, ou quer, passar 4 ou 5 anos numa universidade. Lá fora existe o community college: cursos de 1 a 2 anos, mais baratos, com foco na profissão, e com ponte para a universidade depois, se a pessoa quiser. O Brasil precisava assumir essa diferença entre college e universidade, para quem tem objetivos de vida diferentes, em vez de empurrar todo mundo para o mesmo funil.

Nos planos: os dois citam qualificação e ensino profissional de passagem, mas nenhum propõe um sistema nesse formato.

6. Filho de político em escola pública

Enquanto durar o mandato, os filhos de quem foi eleito estudam na rede pública. Simples assim. Eu não conheço jeito mais rápido de melhorar a escola pública do que colocar os filhos de quem decide o orçamento dentro dela.

Nos planos: nada parecido, em nenhum dos dois. Nenhuma surpresa.

7. Político e família no SUS

A mesma lógica do item anterior: enquanto exercer o mandato, o político e a família dele usam o SUS como qualquer brasileiro. Fila, posto, hospital público. No dia em que o deputado esperar na mesma fila que a mãe de família espera, a fila anda.

Nos planos: nada, em nenhum dos dois.

8. Todos os impostos na nota fiscal

O consumidor brasileiro paga imposto escondido no preço de tudo e não sabe quanto. Eu queria ver cada imposto escrito na nota, por extenso e em destaque, em cada compra. Existe uma lei de 2012 que manda imprimir o valor aproximado dos tributos na nota, mas na prática sai um numerinho miúdo que ninguém lê. Transparência de verdade mudaria a conversa do país sobre imposto.

Nos planos: nenhum dos dois fala de nota fiscal. O do PL chega perto do espírito quando promete simplificar a conta de luz e mexer nas taxas embutidas nela (p. 31).

9. Voto facultativo (acabar com o voto obrigatório)

Voto obrigatório produz voto de qualquer jeito. Eu acabaria com a obrigação: participa da política quem quiser. O político teria que conquistar cada eleitor que sai de casa, e o eleitor que vai até a urna vai porque acredita em alguma coisa. Democracia madura não precisa de multa para existir.

Nos planos: nenhum dos dois toca no assunto. O do PL fala de reforma política e de fim da reeleição (p. 66), mas de voto facultativo, nada.

10. Working holiday para os nossos jovens

Vários países têm acordos de working holiday entre si: o jovem de uma certa idade passa um ano no outro país podendo trabalhar legalmente, ganha experiência de vida e de trabalho, e volta outra pessoa. O Brasil até tem acordos assim, só que quase ninguém sabe. Existem com a França, a Alemanha, a Nova Zelândia, a Coreia do Sul e, desde este ano, com o Japão. O problema é o tamanho: são poucos países e pouquíssimas vagas. O da França, por exemplo, oferece 500 por ano para um país de 200 milhões de pessoas. Enquanto isso, o Canadá troca dezenas de milhares de jovens por ano com mais de 30 países, e o Brasil não está na lista. Eu ampliaria isso com força: mais países, mais vagas e divulgação de verdade nas escolas e universidades.

Nos planos: nada nos dois. A palavra intercâmbio não aparece em nenhuma das 160 páginas.

Para terminar

Essas são as minhas 10. Você não precisa concordar com nenhuma, e os candidatos também não. Mas eu queria ler um plano de governo que olhasse para o jovem brasileiro com essa ambição.

A comparação completa dos dois planos continua no ar, aberta para qualquer pessoa até o dia 25 de outubro, com os dois PDFs oficiais para baixar: As propostas de 2026: PT e PL lado a lado.

Agora é com você: entre na conversa e deixe a sua opinião nos comentários. Concorda com alguma das 10? Discorda? Sentiu falta de uma proposta que nem eu nem os planos lembramos? Escreve aqui. Política devia ser isso: gente normal conversando sobre o país, sem briga.